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Resumo Mensal

Qual o preço justo de uma ação?

Essa é talvez a pergunta mais importante que um investidor em mercado de capitais deva saber responder. Infelizmente pouquíssimos sabem e é por isso que acabam entrando no ninho de cobras e muitas vezes saindo machucados.

Tecnicamente o modelo tido como o “bambambam” dos analistas e até mesmo dos megafundos de investimentos para saber o preço justo de uma ação chama-se Fluxo de Caixa Descontado. É um modelo de cálculo que leva em conta os fluxos de caixa da empresa por toda ” a perpetuidade” ( pois as empresas teoricamente não tem data para acabar), descontados por uma taxa de retorno que leva em conta o risco do investimento associado ao custo de oportunidade”.

Difícil não? Eu sou médico e não economista, mas tb acho dificil. Ainda mais quando vejo as fórmulas matemáticas pra se calcular. Agora, independente da dificuldade, eu pergunto, FUNCIONA?

A minha resposta é NÃO. E a constatação é simples: se os analistas, economistas, presidentes de BCs não conseguem acertar uma projeção pra 3 meses, como é que quer se falar em projeção de lucros pra “perpetuidade”. São puros “chutômetros”  que quando transportados pra fórmula geram os mais diversos e díspares “preços justos”.

Já que isso não funciona, então como calcular o preço justo de uma empresa de forma simples e acessível a qualquer terráqueo que não seja economista.

A resposta está no metodologia chamada ” análise fundamentalista relativa”, onde através de múltiplos produzidos pelos balanços podemos saber como está a saúde financeira de uma empresa e compará-la com outras empresas do mesmo setor, seja no Brasil ou no mundo.

Esta técnica leva em considerações alguns dados:

1) Resultado Operacional: este pra mim é um dos dados mais importantes do balanço de uma empresa. Mostra se a empresa dá lucro ou prejuízo com o “seu negócio”, ou seja com aquilo que ela se propõe a fazer. Não leva em conta se a empresa teve uma grande rentabilidade em aplicações de hedge, em valorização cambial, em empréstimos, em abatimentos de dívida. Enfim, só interessa, compra e venda daquilo pra qual ela foi criada.

2) Resultado Financeiro: este dado muitas vezes mascara os resultados finais de uma empresa, seja pra cima ou pra baixo, pois imbute nos dados do ítem 1, lucros que não se referem ao “objetivo da empresa”, ou seja lucros, taxas e transações bancárias que pouco tem a ver com a compra e venda do setor em que a empresa está situada. É como se vc fosse um médico que gasta mais do que arrecada, mas no final do mês vai na sua caderneta de poupança e saca o valor dos juros dela pra fechar o seu mes no azul.

3) Ebitda ( são os ganhos dos ítens 1 e 2, acrescidos de depreciação e amortização dos ativos, além das taxas praticadas) . Muitas vezes são usados pelos analistas como sinômimo de fluxo de caixa. Eu prefiro usar como sinônimo de fluxo de caixa o ” RESULTADO OPERACIONAL” citado no ítem 1.

4) Lucro líquido vem após descontados todos os impostos do ítem 3.

A partir daí temos acessos aos múltiplos. Como são vários, vou citar alguns que uso pros meus cálculos:

a) P/L : índice preço lucro. É uma medida de quantos anos vai levar pro seu investimento se pagar se a empresa continuar dando o mesmo lucro dos últimos 12 meses. P/Ls alto são muitas vezes aceitos por analistas que acreditam que os lucros da empresa no futuro vão ser exorbitantes, pois aí, o que hoje parece um P/L alto no futuro ficaria baixo. E é exatamente aí que mora o perigo, trabalhar com projeção de lucros e não com histórico de lucros. Eu não gosto de projeção, gosto de histórico. Só consigo projetar um bom lucro se a empresa há anos tem “HISTÓRICO” de bons lucros seja em mercados cíclicos ou em mercados inelásticos.

b)Margem Bruta e Margem Líquida: margens significam o que sobra pra empresa após receber todas as faturas da venda e descontar todos os custos de produção. Ou seja, quando maior a margem, maior será o dinheiro que sobra pros acionistas. Eu procuro empresas que  tenham Margem Bruta ou Margem Ebitda acima de 30% e Margem Líquida acima de 15%.

c) Rentabilidade sobre o Patrimônio: sem dúvida um dos grandes indicadores do mercado. Signfica quanto seus ativos conseguem gerar de renda com o dinheiro do patrimônio. Se a empresa precisa de altos investimentos pra gerar renda, esta rentabilidade é baixa. Porém se a empresa com pouco patrimônio gera boas rendas, ela é tida como uma empresa leve. Como exemplo genérico vamos citar duas empresas de Radiografias: Uma faz radiografia digital cujo aparelho custo 300 mil dólares. A outra usa radiografia analógica cujo aparelho custa 50 mil dólares. Ambas recebem o mesmo dinheiro dos convênios por cada radiografia. Qual empresa tem maior rentabilidade sobre o patrimônio? Obviamente a que tem aparelho analógico, pois recebe a mesma coisa tendo investido 6x menos.  Isso é pra enfatizar que patrimônio TEM QUE GERAR RENDA. De nada vale ter um patrimônio líquido enorme se este patrimonio não gera renda. Eu procuro empresas que tenham uma ROE ( Rentababilidade sobre o Patrimônio acima de 30%).

Por último endividamento. Empresas DEVEM fazer dívidas. Elas são úteis pro crescimento. Mas tem que ser feitas com boas taxas e pra usar o dinheiro pra “GERAR MAIS RENDA”. Eu procuro empresas com um endividamento abaixo de 3x a relação Divida Líquida/Ebitda, ou seja, em 3 anos a empresa pagaria a dívida com a sua geração de caixa.

Dividend Yield: é o percentual que volta pra vc, investidor, sob a forma de dividendos. Aqui existe um porém que já foi explicado por mim em outro artigo. Investidores que querem RENDA, buscam altos dividendos ( acima de da taxa Selic). Ideal pra investidores conservadores, ou que já tem uma certa idade, e quer mesmo é curtir a vida com a renda que a bolsa lhe proporciona. Já indivíduos mais agressivos e que tenham uma idade menos avançada podem se dar ao luxo de desprezar altos dividendos “DESDE QUE O LUCRO QUE A EMPRESA ESTÁ LHE TOMANDO AO NÃO PAGAR DIVIDENDOS ESTEJA SENDO MUITO, MAS MUITO MESMO BEM EMPREGADO.”

Portanto ao encontrar:

1) empresas com P/Ls abaixo de 10, idealmente abaixo de 8.

2)Resultados Operacionais positivos e crescentes nos últimos 5 ou 10 anos.

3) Margens Ebitda ou Bruta acima de 30%

4) Rentabilidade sobre o Patrimônio acima de 30%

4) Divida líquida/Ebtda abaixo de 3x.

5) Dividend yield acima de 10% ( se considerar dividendos abaixo disso, a empresa tem que apresentar lucros operacionais em franco e contínuo crescimento).

Pronto, analise a empresa que vc está querendo investidor pros seus próximos anos e veja QUAL É O PREÇO JUSTO DA MESMA….

OBS: Este é a maneira como faço minhas análises fundamentalistas. Desta forma ela é algo pessoal e não a única ou necessariamente a melhor.

Forte abraço a todos,

Value Investing

9 comments to Qual o preço justo de uma ação?

  • tota57

    Value,

    Formidável o artigo, com a didática que lhe é peculiar. Tenho procurado as empresas na linha que voce propoe e, como já comentamos no passado, o critério dos dividendos acaba nos empurrando para empresas de serviços, salvo algumas exceções como Eternit, Souza Cruz e umas outras poucas.

    Botei o filtro do SHB3 para funcionar à partir das premissas do seu artigo. Infelizmente a Majer ainda não colabora na disponibilização do Ebtida e Divida Liquida.

    Mas vejamos o que encontramos se, cumulativamente, queremos:

    - DY% maior que 8,0%
    - PL menor que 10,0x
    - ROE maior que 30,0%

    Restaram apenas 8 empresas, sendo 6 elétricas.

    Sabiamente voce sugere a alternativa de empresas que paguem menos DY%, mas que estão investindo o lucro no negócio. A vida de investidores conservadores não esta nada facil, acaba tendo que comprar ativos em processo de crescimento, ou se submete ao risco de pouca diversificação na carteira.

    http://img171.imageshack.us/img171/166/filtrovalue.jpg

  • tota57

    Value,

    Eu complementaria seu artigo dizendo que se o investidor pretende diversificar e incluir no seu portfólio de ativos determinado setor, como por exemplo o da construção civil, deverá admitir uma rentabilidade menor verificada nesse segmento. Ao fazer o benchmarking de ROE busque nos demais multiplos, ou no crescimento, a justificativa para sua escolha.

    http://img20.imageshack.us/img20/4351/filtrovalue3.jpg

  • Value Investing

    tota,
    é por aí mesmo. Pra flexibilizarmos os indicadores devemos ter compensações. Por exemplo. Tenho na minha carteira a Vale. Não paga bons dividendos, nem tem um ROE tão grande. Mas tem uma taxa de crescimento anual dos últimos 10 anos bastante forte, mostrando que os lucros retidos ( e não distribuidos sob a forma de dividendos) vem sendo muito bem empregado para gerar valor de mercado ao acionista. O mesmo tem acontecido com a Petro e alguns dos bancos grandes.
    Portanto o guidance que propus é um ponto de partida para um investidor iniciante saber o que procurar em uma empresa. A apartir daí ele vai fazendo os ajustes de acordo com o seu perfil ou com os setores que entende e gosta mais.
    Abração

  • felippebf

    Value e Tota,

    Estou tendo a oportunidade de trabalhar há alguns anos diretamente com um acionista que detém 30% de uma empresa européia com 100 anos de história e ativos de alguns bilhões de USD.

    O conceito de vocês sobre lucro operacional e ROE está fidedigno aos princípios do verdadeiro investidor/acionista que vê o LP. Parabéns pelo post e comentários maduros.

    Grande abraço.

  • andwilson

    Post copiado do topico do smallcaps na advfn

    RicardoSP pergunta >>

    Boa noite, Prof. Paulo.
    O senhor indica algum livro para que eu possa aprender a calcular o Preço Justo de um ativo?
    Leio seus posts e agradeceria demais se me indicasse algo que eu possa vir a aprender a calcular sozinho o preço alvo.
    Obrigado novamente.

    Prof Paulo responde >>

    Não poderia lhe indicar um livro, porque não conheço. Suspeito, entretanto, que se houvesse um livro que cujo tema central fosse o preço justo, este livro seria muito chato. A explicação de TODOS os conceitos pode ser conseguida na web. Leia o livro do Small e outros recomendados para ter uma noção do “conjunto”. Para os detalhes,recorra à web.

    O conceito de preço justo é muito simples. Embora muitos especialistas não concordem, o preço justo de uma empresa seria o valor HOJE de todos os lucros que a empresa terá no futuro, até a eternidade.

    Se em 2020, vc terá um lucro L2020, para calcular o valor presente há que se definir uma taxa de desconto anual. Seja Y% esta taxa. Então, o valor presente (em 2011) do lucro que será obtido daqui a 10 anos será

    L2020presente = L2020/(1+Y)^10 , onde ^ representa expoente.

    Para o lucro que será obtido daqui a 11 anos, ídem,

    L2021presente = L2021/(1+Y)^11

    O Preço Justo (ou valor presente) será, então:

    Preço Justo = L2012/(1+Y)+L2013/(1+Y)^2+L2014/(1+Y)^3+….

    Normalmente, divide-se a vida de uma empresa em duas fases: crescimento e perpetuidade. Na fase de crescimento, os lucros anuais podem ser estimados ano a ano, ou adotando-se uma taxa anual média de crescimento. Na fase da perpetuidade, que vai até todo o sempre, considera-se que a empresa tenha somente um crescimento compatível com a inflação, ou um tris acima disto. Portanto, uma taxa de crescimento 0% real na perpetuidade não é uma hipótese tão ruim.

  • andwilson

    Postado no tópico small_caps no advfn

    small_caps >>

    Sobre o preço justo de um ativo:

    Acredito que mais importante do que sabe definir o preço justo de um ativo, é fazer a análise comparativa do que tem melhor relação “custo x benefício”.
    Ou seja, o que está mais barato no mercado e tem um mínimo de gestão.
    A análise comparativa é essencial dentro da bolsa, dentro do setor e dentro de toda a “indústria” de investimento.
    Não adianta descobrir que ação x vale 50% a mais se naquele momento a bolsa toda deveria estar valendo 100% a mais. A bolsa estará mais barata e vc estará fazendo a compra de uma ação mais cara.

    Outro dado importante:
    o que diferencia os grandes acertos não é a capacidade milimétrica de cálculo e sim o estabelecimento de premissas corretas. Antever novos cenários concorrenciais valem muito mais para o estabelecimento do “até quanto” vale a pena pagar com uma empresa e “a partir de quando” vou vender.

    Veja siderurgia:
    A partir do ano 2000, com o dólar explodindo no país, com a China bombando e com custos competitivos no país, foi a maior festa.
    De repente, tudo mudou para eles:
    a) houve a excessiva valorização do real;
    b) a China de importadora passou a ser exportadora do produto;
    c) acabou a oferta de energia abundante no país. Enfrentamos o racionamento e custos mais altos de energia para a indústria
    d) a produção indústrial brasileira passou a ser terceirizada, diminuindo a necessidade de aço internamente;
    e) o aumento das matérias primas básicas aumentou os custos de produção;
    f) os aumentos reais de salário torna a produção do aço ainda mais cara e menos competitiva mundialmente.

    Logo, AS PREMISSAS é que definem o futuro de uma empresa e seu preço. Os cálculos servem especialmente o “a partir de quanto comprar” e o “a partir de quanto vender”. Mas podem estar certo. Errar uma premissa daquelas acima citadas traz um prejuízo muito maior do que um erro de cálculo preciso.

    O que se tem visto no varejo e construção civil (nas boas empresas que não precisamos citar :) ) é o mesmo que se viu na indústria do aço antigamente. Um raro momento em que DIVERSAS PREMISSAS são favoráveis.

    Abraços,
    Small caps.

  • andwilson

    Post original no topico do small caps na advfn

    small caps>>>

    É meus caros…

    Parece que ja faz um tempão… ainda mais nesta bolsa do “tudo para ontem”…

    Mas, na realidade, desde que postado, considero que o tema está todo dia atualizado demais e não tive mais coragem de escreve algo sobre o texto… vale ficar no topo do blog mesmo… por quanto tempo?

    Quem souber a resposta estará mentindo.

    Leia com atenção e veja se há algo a mudar, 17 meses depois:Reflexão rápida. Alocação de recursos em meio ao pânico.

    Muitas coisas na vida a gente só aprende quando é a nossa pele que está sendo queimada…

    Abraços,
    Small caps.

    =====================================================

    adelpeha >>>

    Small, ou quem se sentir a vontade em comentar. Boa tarde, estou 100% em açoes que corresponde a tudo que consegui poupar em meus 44 anos. Você acha que cabe alocação de uma parte em fii?

    =====================================================

    paulo_prof >>>
    Acho que estar hoje 100% em ações muito arriscado. Mesmo considerando que a bolsa, de uma maneira geral, está barata, a probabilidade de ficar muito mais barata não é desprezível.

    O que vc fará se a Bovespa despencar? Em 5 pregões, já foram quase 6% de queda. Ao que tudo indica (Ásia no vermelho, futuros americanos no vermelho), amanhã o movimento de queda continua. Quando é que vc pensa em começar a vender para ter algum capital para poder recomprar, no caso do Ibovespa despencar mais 20%?

    Para o longo prazo, se a sua carteira é composta de bons papéis, não há erro. Mais cedo ou mais tarde ela voltará a valorizar e ultrapassar o seu TH. Mas se vc estiver algo líquido, terá como aproveitar algumas super pechinchas que se apresentarão.

    Pessoalmente considero que o nosso mercado é mestre em errar a precificação de bancos e de contrutoras. Qualquer núvem mais negra no horizonte e ambos os segmentos sofrem horrores. Já pensou em ter a oportunidade de recomprar BICBs, HBORs, EZTCs, etc., na metade dos preços atuais? Se o Ibovespa perder 20%, sou capaz de apostar que bancos médios e construtoras poderão cair até 50%!

  • andwilson

    post original prof paulo no small caps

    prof paulo>>

    Para o calcular o preço justo de uma ação, tenho usado taxas reais:

    fase de crescimento: 3 anos à uma taxa real que julgue factível
    perpetuidade: taxa zero
    taxa de desconto: 10% (este é um valor individual, onde o risco de certa forma está considerado; a selic se ganha sem risco algum!)

    No que concerne a IGTA3

    A- lucro nos últimos 12 meses: 161.068
    B- lucro nos 12 meses terminados no 2T08: 67.401

    E – RAZÃO A/B = 2,390142579

    C – ÍNDICE IPCA DEZ 2010 = 823,62 (metade do período dos últimos 12 meses)
    D – ÍNDICE IPCA DEZ 2007 = 703,9695

    F – RAZÃO C/D = 1,16996546

    G – RAZÃO E/F = 2,042917215

    H – taxa média real de crescimento do lucro líquido = G^(1/3) – 1 = 26,89%

    I – número de ações = 79.150

    J – LPA = A/J = 2,0353506

    PREÇO JUSTO = R$ 39,42 (embora eu aposte que o lucro da IGTA não crescerá a uma taxa real de 26,9% ao ano, durante os próximos 3 anos!!!!).

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